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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Fim, em uma Cegonheira

Íamos, eu, Diana, Max e Diogo - minha família, com destino a Camboinha, pela BR-230. Havíamos planejado curtir o domingo na casa de uma grande amiga de minha companheira.

Sheilla, a amiga, nos falou, num telefonema, logo cedo, que tinha providen
ciado com muito prazer, bebidas e tira-gostos, para passarmos o dia inteiro juntos. Fazia muito tempo que o casal nos convidava a um reencontro. Nos víamos com pouca frequência, pois não sou tão social quanto Diana, e prefiro o sossego.

Diana foi vizinha de Sheilla quando eram meninas ainda, conviveram lado à lado, durante muito tempo. Cresceram, viraram mocinhas, e sempre conversaram muito em como o futuro iria
ser bom para elas. Tinham uma enorme esperança de que tudo ia dá certo. Não faltavam inteligência e beleza para elas. Eram garotas de chamar atenção. Quando iam passear na calçadinha de Tambaú, nas tardes dos fins de semana, os garotos não as deixavam e paz. Não precisavam exibir os seus dotes físicos, vestindo roupas sexys, ao contrário, usavam roupas conservadoras demais, para as suas idades. As outras meninas mais despojadas no vestir, para realizar a prática da sedução, nem sempre conseguiam o que elas faziam, naturalmente. Conquistando muita atenção, de todos. As duas pareciam ter reencarnado de tempos antigos pela simplicidade de notar as coisas ao redor, e serem percebidas, sem se exibirem.

Diana quando namorávamos, antes de morarmos juntos, começou a me contar essas recordações, e me dizia de como eram felizes sendo amigas. Após dividirmos o mesmo teto eu comecei a saber mais detalhes dessa amizade. Não ficava enciumado, quando ela me falava das coisas que faziam. Aquilo tudo que a minha companheira contava, no meu entender, eram coisas de duas amigas adolescentes, que inexperientes, tentavam descobrir um caminho na vida. Tudo era, a cada descoberta, nova jeito de se sentirem realizadas como pessoa, em adquirir conhecimentos. Eu sentia prazer em ouvir, sempre quando podia as histórias. Aquilo me descortinava um passado lindo, de meninas se transformando a cada nova experiência. Eu sentia que através de nossas conversas do passado de Diana, eu também continuava crescendo, a cada nova sessão de suas memórias.

Elas exploravam as oportunidades que tinham, nos namoros, nas amizades, na vida social, ou só entre elas, de descobrir coisas novas, emoções novas, relações novas. Dividiam juntas o que tiravam de suas relações afetivas e experimentais. Essa relação das duas para mim, e as descobertas que minha companheira contava, pareciam poemas, como fragrâncias de futuras rosas que ainda eram botões, e um dia iriam aromatizar o ambiente ao redor, de um perfume em formação. Bem servidas pela natureza em inocência, experiência e curiosidades - na medida certa, penso sempre que o destino me reservou a sorte de um dia cruzar o caminho de uma delas.

No caminho, quando estávamos próximos ao viaduto do shopping, coloquei uma música antiga que gostava de escutar sozinho, para viajar em devaneios sonoros, ritmicos e com muitas idéias. Não gostava de escutar com ninguém por perto, mais desta vez abri uma excessão, deixando meus companheiros de viajem curtirem o som comigo. Estava excitado, por ter um domingo que prometia ser bom. Max, meu filho mais novo, reclamou da música dizendo que era velha, que eu não tinha gosto, talvez, por ter apenas seis anos e gostar de músicas infantis. Já Diogo de onze, me disse que era uma canção bonita, e até ia se remexendo ao som da música. Então eu acreditei que realmente ele gostava e que não tinha falado apenas para me agradar, ou contradizer seu irmão, que ia reclamando do seu lado.

Like a Rolling Stone é uma música antiga, de gerações atrás. Um cantor do extremo norte do continente americano fez muito sucesso com ela, nada mais, nada menos, que um mestre do rock, Bob Dylan, outro cheio de estilo para mim, como a banda, título da faixa. Bob meu irmão de muitas quebradas, em devaneios, à lançou para o mundo. Esse tipo de som quando ouço, me faz sentir, recordar, muitos sonhos. E me desligam de tudo ao meu redor.

A canção estava quase no fim. No retorno próximo ao Hiper, não sei se por estar "viajando" escutando a música tocada pelos Rolling Stones, não vejo um caminhão enorme de uma transportadora de carros, adentrando a BR. Num piscar de olhos começo a sentir o impacto. Eu ia a mais ou menos oitenta por hora, não pisei no pedal do freio, entro no meio do caminhão. O carro começa a se despedaçar embaixo dele. Escuto em centésimos de segundos sons de metais e vidros se despedaçando, gemidos de morte ao meu lado, todos sentindo dores incríveis, Nos fomos. Acabou nosso compartilhar neste mundo. Nos perdemos uns dos outros. Quatro pessoas, começam a vagar sem vínculos terrenos para o além. E agora nada, a não ser aquela experiência final, me prendem ao que conto. Estou agora em algum lugar, longe de tudo, porém a nossa separação desta forma, me deixaram marcas, eternas.

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