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domingo, 11 de janeiro de 2009

Côcos

As orientações pessoais e sociais são variadas. Estávamos eu e Sandra Maria sentados numa praça em Alagoa Grande.curtindo um fim de samana diferente. Era o mês de junho. Fazia frio, o céu estava encoberto por nuvens carregadas e escuras. Parecia que ia cair uma chuva daquelas. Não se via o luar. As pessoas que passavam por nós, náo estavam com uma aparência muito boa. Havia um certo ar tenebroso ao redor.
Fiquei curioso. Quis saber por que os transeuntes passavam apressados de um lado para outro, comentando algum fato triste, aos cochichos. Os rostos de quem estavam aborrecidos com algo. Era por volta de sete horas, a noite estava apenas começando.
Perguntei a uma moça se tinha acontecido algo. Ela estava bem vestida. Sainha curta, cabelos soltos, blusinha decotada e ombros de fora. Uma menina bonita. Parecia ter uns catorze anos. Passava sozinha. Eu a chamei. Sandra já fez um ar de que não estava gostando. Acho que pensou que eu estava querendo paquerar a menina. Sinceramente, não ia ficar nada bem, para mim, com minha namorada do lado. Mas me atrevi a falar com ela assim mesmo.
A moça se chamava Adriana. Me contou que estava programado uma hora atrás, um show, em frente à praça da Igreja, de dançadores de cõco de roda. Ia ser só o começo da noite festiva. Mas o principal instrumentista, tinha sido assassinado haviam poucas horas, e o show foi cancelado. O tocador tinha sido vitimado por um bêbado, que o viu alegre e satisfeito, se preparando para a apresentação. O infeliz, por não ter nada de bom, com inveja do homem, provocou o instrumentista. Disse-lhe palavras de baixo calão. Chamou o homem até de gay, por conta dos enfeites que o embolador trajava, apropriados à apresentação do côco. Como a vítima, também não estava de toda sóbria. Já tinha tomado umas três ou quatro branquinhas, segundo uns amigos dele. Revidou. O embolador sempre foi uma pessoa tranquila, nunca teve o costume de destratar ninguém, talvez por ter sido educado pela sua arte. A cidade toda o admirava, como pessoa. Porém parece ter ficado possesso. Esculhambou o marginal, fioou muito nervoso pela surpresa de aquela figura maltrapilha e suja, sem nenhum valor que pudesse defender na sociedade, o ter desmoralizado. Foi tudo o que o bebarrão quiz, puxou de dentro das calças sujas uma faca, e desferiu vários golpes no homem. Parecia um doido, se banqueteando de sangue. Mesmo a vítima ja estando no chão sem vida, o cruel não descansou de seus atos selvagens. Só parou após ter sido agarrado por muitos homens que vieram acudir arriscando suas vidas. Mas já era tarde demais.
Adriana me contou isto e foi-se. Ela não tinha a aparência de uma garota do interior, era bem desencabulada. Conversei um pouco com Sandra sobre o fato, nos levantamos, andamos um pouco pelas ruas e voltamos à nossa cidade. Desanimados também pelo acontecido. Nem sabíamos, quando fomos à Alagoa Grande passear, que ia haver um show. Mas se tívessemos ido sabendo e ido à praça da Igreja, iríamos ficar decepcionados, como as pessoas que passaram por nós, naquela noite estranha.

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